200 anos de Marx

Lançado o livro III d’O Capital, na série mais atual de traduções da obra, a conservar a linguagem coloquial do pensador

Por Lejeune Mirhan* | Adaptação web: Tayla Carolina

Este artigo será mais que uma resenha. Pretendo abordar vários aspectos da obra do que talvez tenha sido o maior pensador e filósofo da história, Karl Marx. Nunca é demais registrar que em 2018 teremos 135 anos de sua morte em 14 de março, 170 da publicação do Manifesto Comunista (em fevereiro) e 200 anos de seu nascimento em 5 de maio. Como sabemos, Karl Marx tem em sua obra não só uma visão econômica, mas também política, filosófica e sociológica.

Meu contato com o pensamento marxista

Ainda jovem, em 1975, em plena ditadura, na universidade travei contato com a obra de Karl Marx. Desde essa época até hoje procuro me aprofundar no seu pensamento. Jamais recomendaria a alguém que quisesse conhecer o pensamento de Marx a leitura d’O capital, pelo menos antes de ter lido uma série de livros antes. Ainda assim, essa obra não é para iniciados em economia.

Tomei contato com O capital já desde a publicação das traduções diretas do alemão (comento a seguir), a partir de 1986. Pelo meu interesse na concepção marxista de proletariado, estudei mais o Livro IV (que, espero, a Boitempo também o publique). Nos idos de janeiro de 2000, cheguei a fazer um projeto de leitura d’O capital em 40 semanas
de forma disciplinada e programada, a partir de um grupo de 10 pessoas.

Sobre a edição da Boitempo

As “orelhas” do livro foram escritas por Sara Granemann, assistente social, especialista em Antropologia Social; mestre e doutora em Serviço Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro/RJ, onde atualmente é professora da Escola de Serviço Social.

Há uma introdução de Marcelo Dias Carcanholo, economista pela USP (1993), mestrado pela UFF e doutorado pela UFRJ. Atualmente é professor de Economia da UFF, membro do Núcleo Interdisciplinar de Estudos e Pesquisas em Marx e Marxismo (NIEP-UFF), pesquisador do Núcleo de História Econômica da Dependência Latino-americana (Hedla-UFRGS) e professor colaborador da Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF-MST).

A Editora Boitempo tem prestado serviço não só aos marxistas, mas aos pesquisadores sobre o pensamento econômico. Mais do que nunca, a nosso ver, as ideias de Marx, que alguns dizem que são “boas, mas valem para o século XIX” (sic), estão mais vivas e válidas que nunca. Ao todo, o catálogo da editora já conta com 22 obras de Marx e Engels.

Todas traduzidas diretamente do alemão. Isso sem falar de autores que desenvolvem o pensamento marxista, como David Harvey, Domenico Losurdo ou ainda autores que se apoiam na teoria marxista, como Zizek, Lowy, Benjamin, Wallerstein, entre outros.

 

→ Confira a entrevista com um sociólogo sobre o marxismo

 

Rosa Luxemburgo, que dispensa apresentações como revolucionária e pensadora alemão, autora, entre outros de  A acumulação de capital (no Brasil editado pela Zahar) foi incluída após os comentários de Marcelo Carcanholo. Rosa comenta na verdade os livros II e III, que ajudam o/a leitor/a a compreender melhor a dimensão do pensamento econômico marxista.

A editora lança esse Livro III este ano de 2017 em comemoração aos 150 anos da publicação pelo próprio Marx em 1867 do Livro I. Sabemos que os volumes II e III foram editados por Engels, sendo este último publicado em 1894, um ano antes de sua morte (falaremos dele mais à frente).

Há um esclarecimento fundamental aos leitores atentos: são cinco tipos de notas de rodapés explicativas, fora as
que são usadas o “*”. São elas: nota do próprio Marx (K.M.); notas do Engels (organizador do livro, F.E.); nota da edição alemã (N.E.A.) do projeto Mega (Marx-Engels-Gesamtausgabe), notas da edição brasileira, acompanhada de N.E. e, claro, do próprio tradutor (N.T.).

Aqui cabe um pequeno esclarecimento do projeto Mega. Essa sigla significa mais ou menos “Edição integral da obra de Marx e Engels”, cujo produto final, incluindo cartas, palestras, artigos em jornais, verbetes, devem completar com 90 livros publicados. Marx, como todos sabem, era um missivista voraz e que se correspondia com pelo menos dois mil indivíduos em todo o mundo, diferente de Engels, mais comedido nisso.

Sobre o tradutor

Trata-se do Prof. Rubens Ederle e dele precisamos falar um pouco. Graduou-se em Filosofia pela UFMG, universidade onde também fez mestrado. Ingressou no doutorado na Unicamp em 2007, mas depois disso atuou no Projeto Mega-2 na Alemanha até 2010. Optou em transferir seu doutorado para a Universidade de Munique, onde pesquisa a obra do filósofo Eric Voegelin. Vive hoje em Munster, na RFA. Pela Boitempo traduziu diversas obras
de Marx.

Volumes II e III d’O Capital foram editados por Engels (fotos), sendo este último publicado em 1894

Sobre as traduções no Brasil

No Brasil tínhamos, antes desta edição, duas traduções diretas do alemão. Uma publicada pela Editora Abril, da coleção Os Pensadores, da qual participou da coordenação o Prof. Paul Singer e não é O Capital por inteiro, mas parte dele.

Ela data de 1986 e publicou apenas os três primeiros livros. A segunda, completa, da Editora Civilização Brasileira, comprada posteriormente pela Record, de Reginaldo Sant’Anna, editada por Ênio Silveira, com os quatro livros e nove volumes, que saiu a partir de 1989. Tenho ambas, ainda que tenha lido apenas a da Civilização.

Quais então as grandes novidades desta tradução direta do alemão? A primeira e mais fundamental, no meu modo de ver, é que o antigo conceito que usávamos de “mais-valia”, que significava a acumulação de riqueza a partir do trabalho não remunerado aos trabalhadores, passa agora a denominar-se “mais-valor”. Isso diz tudo.

O que o trabalhador produz mesmo é um valor a maior, que enriquece o proprietário dos meios de produção. Comentei isso em detalhes nas resenhas anteriores dos Livros I e II. Por fim, a confissão da fidelidade de Engels aos originais.

As alterações foram as menores possíveis, modificando estilos (Marx escrevia de forma coloquial), ainda assim onde o próprio Marx, seguramente, as teria feito. Vejam esta passagem: “Reproduzir o texto da maneira mais autêntica possível, com as próprias palavras do autor, e interferir no texto somente quando fosse absolutamente inevitável, tomando o máximo de cuidado para, mesmo nesse caso, não deixar ao leitor a menor dúvida sobre quem está falando”.

“Criticaram-me por isso, disseram que eu ter transformado o material de que dispunha num livro sistemático e sacrificar a autenticidade do texto… faltava-me qualquer justificativa para uma reelaboração desse tipo; um homem como Marx tem o direito de ser ouvido pessoalmente, de legar à posteridade suas descobertas científicas na autenticidade plena de sua própria exposição. Além disso, de modo algum eu pretendia ultrajar, segundo meu modo de ver, o legado de um homem tão proeminente; isso equivaleria a uma quebra de confiança…” (página 951).

 

→ O marxismo no Brasil

 

Que exemplo de fidelidade a uma pessoa. Uma declaração da filha de Marx, Eleanor, de que ele teria dito sobre seus escritos “Engels deveria fazer algo com eles”, serviu para Engels agarrar essa imensa tarefa intelectual de arrumar tais escritos, mas garantindo que seria uma obra do autor e não do editor.

No Livro I, Marx trata do processo de “produção e acumulação” do capital. Mas não há como falar em produção sem falar em consumo que depende da circulação do capital/mercadoria. Aliás, já sabíamos, desse volume, que a realização do mais-valor só se consuma efetivamente quando a mercadoria é adquirida por um consumidor.

No Livro II Marx trata exatamente de como o capital circula, ou seja, tempos de circulação desse capital, de forma que quanto mais rápido a mercadoria circula e é vendida tanto mais rápido o mais-valor é apropriado pelo capitalista.

Se esse tempo for o mínimo possível, a capitalização é quase imediata. Podemos ver isso hoje em escalas jamais imaginadas por Marx e Engels, como é o caso do comércio eletrônico por páginas de lojas virtuais na internet. Na verdade, os capitalistas hoje podem receber ANTES de que a sua própria mercadoria tenha sido entregue ao consumidor.

Conhecemos a famosa fórmula que Marx utiliza. Tão conhecida quanto a fórmula de Einstein E=MC2. Marx apresenta a sua: D – M – D’, ou seja: um dinheiro/capital produz com TRABALHO uma mercadoria, que por sua vez, quando vendida retorna na forma de MAIS DINHEIRO/ MAIS CAPITAL.

Aliás, por isso sempre dissemos que o modelo neoliberal, criou na verdade um novo tipo de capitalismo, que alguns autores preferem chamar de “cassino”, especulativo que se rege pela fórmula: D – D’, ou seja, o dinheiro se reproduz sem passar por nenhum sistema produtivo, sem gerar nenhum emprego, sem gerar mais-valor.

Como Marx não está errado em sua teoria, esse modelo neoliberal de capitalismo financeiro tende a explodir como uma bolha. Neste livro III, Marx vai fundo na gênese e no funcionamento geral do sistema capitalista. Aqui vamos ver um Marx muito mais reflexivo, atento às críticas e às autocríticas, como disse Rosa Luxemburgo.

A sua fórmula trinitária, como veremos a seguir – que precisamos entender e estudar melhor –, surge como desfecho dessa monumental obra intelectual.

 

Para ler esse texto na íntegra, compre a revista Sociologia – Ed. 73

 

*Lejeune Mirhan é sociólogo, professor, escritor e analista internacional. Lecionou na Unimep de 1985 até 2006. Foi presidente do Sindicato dos Sociólogos do Estado de SP (2007 a 2010) e presidente da Federação Nacional dos Sociólogos de 1996 a 2002. É colaborador desta revista desde 2007. E-mail: lejeunemgxc@uol.com.br