As formulações sobre o populismo no Brasil*

Weffort, Moisés, Ianni e Andrade foram alguns dos principais intelectuais a se debruçarem sobre o tema para explicar fenômeno político

Por Rafael Tauil** | Adaptação web Tayla Carolina

Francisco Weffort pode ser considerado o autor que, de certo, modo consagrou as formulações sobre o populismo no Brasil. Talvez mais do que seu rigor teórico, sua retórica marcante contra o nacionalismo e contra o que ele chamava de “aliança de classes”, “estado de compromisso” e “arranjo político” – lançando desde 1963 suas críticas a alguns setores da esquerda – fez dele o “teórico do populismo”.

Ao lado de Weffort, José Álvaro Moisés, Octavio Ianni e Regis de Castro Andrade viriam também teorizar sobre o fenômeno no Brasil, contribuindo com a consagração desse termo e tipificação política. As formulações de Weffort sobre o populismo variaram bastante de acordo com as instituições nas quais esteve inserido: USP (Universidade de São Paulo), Cepal (Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe) e Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap).

De todo modo, todas essas interpretações tiveram como fundamento a ideia de que no Brasil os “rumos da nação” teriam ficado, em diferentes momentos históricos, a cargo do Estado e de suas alianças com as oligarquias tradicionais e classes médias, cabendo às massas e às classes populares papel de meros coadjuvantes nos processos históricos de transformação.

Dito de outra maneira, na visão de Weffort, o poder de levar a cabo as transformações políticas brasileiras teria vindo sempre “de cima”, herança de uma sociedade fundada em bases autocráticas, tendo a Revolução de 1930 como importante marco representativo dessa herança, como atestariam seus primeiros estudos sobre o tema.

O fenômeno do populismo, nesse caso, seria em sua visão consequência de um “vazio político” proveniente de uma crise de hegemonia política no contexto histórico em questão. O autor constatava, ao formular essa interpretação, a ausência de um ator político – típico das revoluções burguesas tradicionais – que tivesse capacidade de levar à frente o desenvolvimento capitalista que conduziria a nação brasileira à “modernidade”, cabendo ao Estado o papel de comandar os “rumos do país”.

Segundo essa visão, teria ficado sempre a cargo do Estado o papel de árbitro de classes, dotado da função de mediar as relações entre frações políticas, econômicas e ideologicamente “antagônicas”.

Além disso, a leitura de Weffort estava assentada sobre a ideia de que, ao lado das antigas oligarquias e da classe média urbana, passavam a compor o cenário político-nacional amplos contingentes populacionais provenientes dos movimentos de migração campo-cidade e da evolução industrial do período – processo iniciado, de certo modo, durante a Primeira Guerra Mundial, com o fortalecimento do campo industrial brasileiro por conta das dificuldades de importação de produtos manufaturados.

 

* Este artigo é uma versão modificada de um capítulo de tese de doutorado do autor, defendida em 2017 pela UFSCar, sob o título Intelectuais e política no Brasil: da teoria do populismo à reconciliação com a tradição republicana na interpretação de Francisco Weffort.

 

**Rafael Marchesan Tauil é doutor em Ciência Política pela UFSCar. Pesquisador do LabPol – Unesp. Professor de Ciência Política e Sociologia na Escola Paulista de Direito. E-mail: rafaeltauil@hotmail.com

 

Para ler esse texto na íntegra, compre a revista Sociologia – Ed. 75