Carolina Maria de Jesus: vida, obra e sociedade

Conhecer o trabalho da autora como um todo nos ajuda a compreender os aspectos da estrutura social brasileira

Por Eliane da Conceição Silva | Adaptação web Tayla Carolina

O livro Quarto de despejo: diário de uma favelada, da escritora Carolina Maria de Jesus, foi um grande sucesso editorial no início dos anos 1960, mas sua obra, que inclui diários, romance e poesias, dentre outros gêneros literários, ainda é pouco conhecida, embora, depois de quase 41 anos de sua morte, pela primeira vez, Quarto de despejo foi incluído nas listas de dois importantes vestibulares, o da Unicamp (2019) e da UFRGS (2018).

Por isso, além de ser fundamental a leitura desse importante livro, conhecer a obra de Carolina Maria de Jesus como um todo nos ajuda também a compreender os aspectos da estrutura social brasileira que se mantém apesar das mudanças que ocorreram desde que Carolina começou a escrever o seu cotidiano e de tantos outros que, como ela, viviam às margens da sociedade.

Carolina Maria de Jesus nasceu em 14 de março de 1914, filha de Maria Carolina e de pai desconhecido, e também tinha um irmão. O círculo familiar era formado também pelo avô, tias e primos próximos, sendo a figura de seu avô, sr. Benedito, a quem Carolina escreve um conto chamado “O Sócrates africano”, de grande importância para sua formação.

Carolina aprendeu a ler e escrever na escola, um colégio espírita de Sacramento, mas é retirada de lá por sua mãe, quando esta decide mudar-se com o homem que viria a ser o padrasto de Carolina, para trabalharem em uma fazenda próxima da cidade.

Apesar dos poucos anos de estudo, Carolina tem grande amor pelas letras e se torna leitora assídua dos poucos livros a que tem acesso. Entretanto, a primeira guinada na sua vida não advém do papel das letras, mas da situação econômica e social de sua mãe, que, como muitos brasileiros, migraram na primeira metade do século XX.

Carolina e sua mãe mudaram-se para São Paulo, para a cidade de Franca, em busca de melhores condições de vida, e lá exerceram inúmeras funções para sobreviver. Isso se deu, aproximadamente, em 1930, quando Carolina era adolescente.

Com a morte da mãe, em 1937, Carolina sente-se cada vez mais impulsionada a buscar melhores chances na capital.
Carolina, sozinha no mundo, dormiu sob pontes, em estradas e lugares desprotegidos. Fez várias coisas para ganhar dinheiro, principalmente trabalhou como empregada doméstica.

Foi também faxineira em hotéis, auxiliar de enfermagem em um hospital, vendeu cerveja, algumas vezes tentou ser artista de circo (Meihy; Levine, 1994, p. 21). Em São Paulo, Carolina teve seus três filhos, e sua ida para a favela está ligada às situações de abandono que viveu a partir de então.

Quando Carolina engravida de João José, em 1948, é obrigada a sair da casa em que trabalhava como empregada doméstica. Sem a presença do marinheiro português que a engravidara, foi viver na favela do Canindé, às margens
do rio Tietê, e para sobreviver passou a catar papel.

Os outros filhos são resultados de relações mais ou menos parecidas com a primeira (Meihy; Levine, 1994). Carolina não fala de suas escolhas em seus diários, mas retrata de forma bastante crítica os homens que aparecem em
sua obra.

 

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Dessa dificuldade de viver como mãe solteira, Carolina gerou um forte senso de independência e coragem que, muitas vezes, foi confundido pela mídia, editores, ou por aqueles que conviviam com ela, com arrogância e soberba. Para a sociedade que a cortejou, fascinada, Carolina representava os pobres, mas o fascínio acabou quando viram ser uma “pobre soberba”.

Já para os pobres que a rejeitaram, desde sempre, sua literatura em nada serviu. Para eles nunca passou de uma “crioula metida” (Santos, 2009, p. 118). Porém, para além desses adjetivos, o único que Carolina aceitou e buscou durante sua vida foi o de escritora.

Segundo Eliana Castro e Marília Machado (2007), Carolina provavelmente começou a escrever em 1940 e não parou mais, tentando inúmeras vezes ter seus escritos publicados. A primeira matéria sobre ela possivelmente data de 1941, através do jornalista Villi Aureli, com um poema em homenagem a Getúlio Vargas.

Foi através dessa constante procura que o encontro “fortuito” entre Carolina Maria de Jesus e Audálio Dantas, jovem jornalista da Folha da Noite, em 1958, representou a possibilidade que Carolina sempre almejara. Audálio Dantas fora fazer uma reportagem na favela do Canindé sobre um parquinho instalado pela prefeitura, como ele explica no prefácio de Quarto de despejo, mas Carolina se sobrepôs ao chamar a atenção de alguns homens que estavam usando os brinquedos, ameaçando referi-los em seu livro.

Audálio se interessa por essa história a partir daí, e vai com ela conhecer os seus cadernos e escritos. Audálio começa publicando trechos na Folha da Noite como “melhor retrato da vida nas favelas”, e em dois anos edita e publica Quarto de despejo, que se tornaria o maior sucesso de vendas no Brasil, em 1960, traduzido depois para 17 línguas.

O sucesso repentino e a exposição na mídia, as constantes demandas de pessoas interessadas em seu dinheiro, viagens e cobranças foram prejudiciais para o desenvolvimento da escritora. Seu desconforto é amplamente apontado em Casa de alvenaria (1961), levando-a a vender sua sonhada casa de alvenaria, em Santana, e a comprar um terreno em Parelheiros, periferia da zona sul de São Paulo.

E, mais reclusa, distante dos holofotes, sem a mesma atenção ao seu grande sucesso Quarto de despejo, os livros que publicou por conta própria, em 1963, Pedaços da fome e Provérbios, Carolina começa a ser esquecida.

Em 1966, retorna às manchetes por conta de uma polêmica sobre sua volta às ruas, catando papel para conseguir dinheiro, além de matérias esparsas em jornais e revistas, muito mais interessados na personagem Carolina Maria de Jesus que fora criada por eles do que nos reais motivos de sua reclusão.

Em 1976, duas pesquisadoras procuram Carolina para um livro sobre mulheres brasileiras de destaque e, nesse momento, Carolina vê a possibilidade de ter a atenção aos seus textos e não à sua vida renovada, por isso entrega a elas os manuscritos do que pretendia ser um romance, intitulado Um Brasil para os brasileiros.

E que mais tarde dará origem ao Diário de Bitita, mas que Carolina não vê publicado, pois morre no ano seguinte, em 13 de fevereiro de 1977, a caminho do hospital, vítima de uma doença respiratória. A notícia de sua morte foi amplamente divulgada nos jornais da época e reflete o fim da personagem criada pela própria imprensa quinze anos antes, mas pouco interessada no legado de sua obra.

Para ler esse texto na íntegra, compre a revista Sociologia – Ed. 74