Elogio à tecnofobia

Um ensaio sobre as sociedades pós-industriais e o futuro.

Por Alexandre Quaresma / Adaptação Web Rachel de Brito

Vivemos enredados em uma rede sociocultural tão intensa e onipresente que por vezes é comum a ignorarmos. Ou ainda, simplesmente, esquecermos dela. Referimo-nos, é claro, aos diversos tipos de contratos psicossociais que têm de ser seguidos à risca e respeitados, sob pena de romper-se assim o próprio tecido social que permeia as reciprocidades das relações.

A vida gregária humana tem – como sabemos – sua origem na própria estruturação psíquica, comportamental e evolutivas da espécie, já que a organização em grupo foi e ainda é fator determinante em quaisquer análises da evolução do sapiens que se queira considerar. E, para que seja possível a continuação desse complexo corpo social vivo, cheio de extremos e diferenças, faz-se necessário que tudo esteja sempre em seu devido lugar; controlado, ajustado, enquadrado, explicado, monitorado, autorizado, seguindo as normas gerais vigentes; obedecendo as leis e a moral, respeitando os costumes, enfim, é importante notar que há todo um esforço coletivo para a domesticação e formatação dos sujeitos, a obediência das massas, a manufatura do consenso, e tudo objetivando, é claro, em última instância, alimentar e mover o enorme e multifacetado monstro sem rosto que aí está a devorar tudo chamado de mercado capitalista.

E, no seu contexto, no universo mercantil das indústrias, no mundo dos capitais, a tecnologia e as tecnociências desempenham papéis centrais, determinantes, pois são elas que vão servir de ferramenta para a exploração, monitoração e controle dos mais diversos grupos sociais, atuando em níveis cada vez mais altos, profundos e penetrante.

Todavia, a maioria rude – infelizmente – não enxerga a Cibercultura em nada disso, e, talvez, nem queira de fato enxergar. Raciocinar dá trabalho e a coletividade quase sempre segue o cardume, nada a favor da corrente, acompanha a maré, repete o que ouve sem raciocinar, usa uma determinada moda, pois a própria moda assim o exige, faz tudo isso e muito mais, apenas e tão somente porque todo mundo faz ou está fazendo o mesmo, sem perceber, sem se dar conta, sem refletir criticamente, sem pensar por si mesmo, e simplesmente vai obedecendo, segue trabalhando, serve, baixa a cabeça, se ajusta, se enquadra, se adapta, é subjugado.

Ainda que no fundo acredite ser livre para traçar e conformar sua própria existência, fazer suas escolhas, está de fato presa onde todos estão, ou seja, em pequeninas compartimentações predeterminadas, preestabelecidas, altamente especificadas, pactuadas de bom grado pelo próprio sistema psicossocial do qual se faz parte agindo e ocupando espaços sociais mínimos e já previamente determinados e delimitados, sem liberdade de movimento, imobilizado, preso nessa enorme e deplorável armadilha que, há muito, já nos apanhou e aprisionou.

Tudo isso segue, é claro, obrigatoriamente, as normas e os ordens das novas tecnoideologias, assim como fazem os cordeirinhos dóceis e cândidos, que estão submissos e à disposição para serem aparados e advertidos, e que se encontram sempre prontos para o abate. Mesmo porque – como premissa de tal ideologia – essa mesma maioria manipulada acredita piamente que tudo oriundo das tecnologias e tecnociências é necessariamente bom, o que – convenhamos – não faz o menor sentido na vida real e factual.

Armas, bombas e tanques são tecnologias avançadas, que possuem diversas outras tecnologias de ponta embarcadas nelas mesmas, e nem por isso o mundo é um
lugar melhor, mais humano e digno de se viver graças a elas. Pelo contrário. O que queremos sublinhar, como críticos das tecnologias que somos, é que as tecnologias – todas elas – são sempre ambíguas, incertas e imprevisíveis em todo o seu potencial, servindo às mais diversas e contraditórias finalidades, e, por isso mesmo, causam também problemas, crises e catástrofes de diversas naturezas, provocando horror e trauma coletivo.

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