A luta firme da cientista social Esther Solano

A trajetória e as ideias da cientista social que migrou para o Brasil e se tornou uma das vozes fortes nos movimentos sociais

Por Daniel Rodrigues Aurélio | Foto YouTube  | Adaptação web Isis Fonseca

Esther

Para nós, brasileiros, o nome Guadalajara remete à cidade mexicana que foi sede de cinco dos seis jogos da épica campanha do tricampeonato mundial, quando Pelé, Rivellino, Tostão, Gerson, Jairzinho e outros craques brilharam no gramado do estádio Jalisco.

No entanto, na Espanha, localizado na Província de Castilla-La Mancha, existe um pequeno e antigo município homônimo, fundado pelos árabes por volta dos
séculos VIII e IX. Provinciana e religiosa, é terra natal de pintores, escritores e da líder socialista Purificación Causapié.

É também nesse lugar, um tanto longe da agitação das megalópoles, que nasceu uma das principais intelectuais do momento – a socióloga e professora Esther Solano Gallego. De estilo firme nas argumentações e gentil na fala, Esther Solano é influenciadora no universo da ciberpolítica e também dos movimentos sociais que fervilham nas ruas.

Para fugir do ambiente “sufocante” de Guadalajara, Esther rumou aos 19 anos para Madri. Na capital iniciou uma ascendente trajetória acadêmica na Universidade Complutense, tornando-se graduada, mestra e doutora em Ciências Sociais.

A pesquisadora nascida em 1983, que já abordava questões relacionadas ao Brasil, parecia ter o destino traçado: embarcar rumo ao nosso país. Aqui ela faria a sua história – e também a História, sendo pesquisadora e participante ativa dos movimentos que abalam o Brasil desde 2013. Lecionou na Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e atualmente é professora de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Coautora de um livro sobre o movimento Black Bloc, colaboradora de publicações como El País, Carta Capital e Folha de S. Paulo, e sempre presente na internet, Esther não foge à luta – ela coloca suas ideias sem rodeios ou teorizações inócuas. “Temer no Planalto, Gilmar no STF, Joesley em Nova York. Rafael Braga na cadeia”, escreveu certa vez no Facebook. Ela é assim: direta e certeira.

Para começar, conte para nós quais caminhos acadêmicos a levaram ao Brasil? Como você foi parar em instituições como a UFU e, depois, a Unifesp?

Eu saí da Espanha quando se deu a crise [econômica]. Eu estava fazendo lá o doutorado e a crise, como se sabe, chegou de um dia para o outro. Foi muito abrupta, muito brusca, muito dramática.

Meus planos na verdade seriam de ficar na universidade pública. A ideia era fazer o doutorado e tentar ficar lá. Na Espanha é muito complicado porque você tem um grande número de doutores e poucas vagas na universidade. E o que já era complicado, depois ficou praticamente impossível.

E paralelamente coincidiu com os governos do PT, no Brasil, que estavam ampliando muito o número de vagas na universidade pública, com o Reuni etc. Eu vim para cá pensando nessa alternativa de um trabalho melhor do que teria na Espanha. Como aqui a forma de entrar na universidade é diferente, eu não sabia como funcionava o concurso, não sabia quais regras.

Eu nunca tinha visto um modelo equivalente. Primeiramente eu tentei o concurso em Uberlândia, para ver como funcionava, como eu me sentia. O português obviamente não era minha língua, não tinha o domínio, mas, enfim, estudei, passei lá. Mas, para mim, uma cidade pequena é sempre complicada, preciso de uma cidade mais cosmopolita, que tenha uma heterogeneidade social e cultural maior.

A minha intenção era mesmo vir para São Paulo. Eu acho a cidade de São Paulo apaixonante, mas com graves problemas, com graves violências. Mas seu tamanho e complexidade me fascinam.

Um ano depois da UFU, passei na Unifesp, no curso de Relações Internacionais. Estou bem feliz lá. É um campus novo, dessa leva dos governos petistas [o campus de Osasco], com possibilidade de construção de algo novo. Mas, basicamente, a crise me trouxe para cá.

Por isso sou agradecida ao Brasil e nunca deixarei de estar. Porque consegui uma oportunidade de emprego que na Espanha eu nunca teria conseguido. Sou eternamente grata.

A sua trajetória acadêmica ocorreu em grande parte na tradicionalíssima universidade complutense de Madri. Como foi essa experiência?

Sim, é verdade, eu sempre estudei na Complutense de Madri. Eu adorava estudar lá, tenho um imenso carinho. É uma grande universidade e oferece o que para
mim é muito importante: o fato de que se o aluno tiver uma inquietação intelectual, você pode estudar em várias faculdades, pegar várias matérias ao mesmo
tempo, ir a palestras, tem muita atividade. Isso é muito rico.

Eu estudei primeiro Física e depois Sociologia. Só para entenderem um pouco da complexidade da minha formação – fui das Ciências Físicas para as Sociais. Enfim, passei um bom tempo na universidade, fi z graduação, mestrado, doutorado.

Durante esse tempo me envolvi com o ambiente universitário, com muitas práticas culturais, políticas – inclusive dentro da instituição. Eu vivi muito o espírito da universidade. Para mim, universidade não é simplesmente ir receber aula de uma forma passiva, com função apenas de absorção [de conteúdo]. É preciso
ter uma vida universitária completa, com tudo aquilo que ela tem para oferecer.

Passa também pelas aulas, obviamente, mas também por uma formação mais completa, a partir da socialização dos alunos, dos professores, por uma formação política. Vivenciei movimentos políticos, me formei em muitas coisas, para além dos meus cursos. Para mim significou de fato o que é uma vida universitária.

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