Gilead à brasileira?

Um regime fictício que interpreta a mulher como inferior parece muito com a realidade brasileira

Por Daniel Aurélio | Foto Shutterstock | Adaptação web Tayla Carolina

Baseado no romance distópico da canadense Margareth Atwood, publicado em 1985 e cujo título no Brasil é O conto da aia, a série The Handmaid’s Tale venceu nada menos do que seis prêmios Emmy logo em sua temporada de estreia.

Em poucas palavras, para evitar spoilers, o enredo narra o que aconteceu após a queda dos EUA e a instalação de um regime totalitário de orientação fundamentalista cristã, a República de Gileade (ou Gilead), na qual uma interpretação radical da palavra divina dita as regras. As mulheres são divididas em castas e subjugadas.

O mais trágico, porém, é que, desprovidas de sororidade, algumas mulheres contribuíram ideológica e moralmente para o triunfo de um governo em que justamente as mulheres são reduzidas a propriedades dos Comandantes, como reprodutoras, zeladoras do lar, trabalhadoras domésticas.

No Brasil, entre o final de outubro e início de novembro de 2017, alguns acontecimentos escancararam de vez o patriarcalismo e o conservadorismo da nossa sociedade – e principalmente a ignorância sobre a questão de gênero.

Exemplo disso é a perseguição à filósofa norte-americana Judith Butler, ícone da teoria queer, com petições pedindo o cancelamento de suas palestras, protestos furiosos em frente ao Sesc Pompeia no dia de sua chegada, com direito a vergonhosa incineração de um boneco com seu rosto e os gritos de “Queimem a bruxa!”, em um ato inquisitório que manchou a imagem do Brasil no exterior. Depois, Butler foi agredida no Aeroporto de Congonhas.

Quase simultaneamente, por 18 votos a 1, uma comissão da Câmara dos Deputados aprovou para votação a PEC 181, apelidada de “cavalo de troia”, que criminaliza o aborto legal, hoje permitido em casos de estupro, risco de vida da mãe ou se o feto for anencéfalo.

O único voto contra foi da deputada Érika Kokay (PT-SP). Os 18 homens que querem legislar sobre o corpo da mulher, tal como os Comandantes do romance de Atwood (e da série de sucesso), são integrantes da bancada da Bíblia: pertencem à Renovação Carismática da Igreja Católica, além de igrejas pentecostais e neopentecostais.

O presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), chegou a afirmar que tal texto da PEC 181 provavelmente não passaria no plenário. Será? Gilead é aqui. Gilead é aqui?

 

Texto adaptado da revista Sociologia – Ed.73