Infolatria tecnofágica: a era do smartphone

A cibercultura e as realidades virtuais estão transformando radicalmente a nossa experiência psicossocial coletiva, ou seja: a forma como vivemos, nos comportamos, nos sentimos, nos compreendemos e a própria realidade ao nosso redor

Por Alexandre Quaresma* | Adaptação web Tayla Carolina

Toda essa cultura cibernético-informacional é de fato incrivelmente cômoda, útil, funcional, atraente, sedutora, mas, ainda assim – e os tecnólatras da vez que nos perdoem –, afirmamos que mais informação circulando nas redes e mídias não significa de modo algum mais conhecimento assimilado, educação, cidadania; e que muito menos a tecnologia, por si, seja sinal seguro de mais esclarecimento, humanidade, erudição e desenvolvimento cultural.

O que vale dizer que mais disponibilidade – de dados, informações, conteúdos, mensagens, twitters, posts, zaps e congêneres – não determina, por si só, qualquer tipo de evolução cognitiva e intelectual, esclarecimento e assim por diante. Outro mito muito repetido e propalado aos quatro ventos é o de que a tecnologia seria essencial e necessariamente benéfica às coletividades humanas.

O que é – diga-se – uma balela. Pois nós – que pesquisamos a referida matéria há quase uma década, juntamente com outros pesquisadores, teóricos e pares –, chegamos à dura conclusão de que as tecnologias – e as próprias ciências, de uma maneira geral, enfim, as tecnociências – sempre acabam servindo primeiro aos poderes hegemônicos já dominantes, às elites, privilegiando – quando muito, e sempre tardiamente – as sociedades e coletividades humanas de uma maneira mais ampla.

Sim, pois os P&Ds (Pesquisa e Desenvolvimento) nessas áreas são extremamente dispendiosos, da mesma maneira que os investidores – que apostam nesses projetos de fronteira das tecnociências, sejam eles privados, públicos e/ou institucionais – só o fazem com vistas – é óbvio – ao retorno financeiro e lucro que eles possam proporcionar, e não num altruísmo improvável que não tem lugar no mundo materialista e venal que aí está.

Mesmo porque vivemos numa realidade mercantilista, capitalista, cuja lógica comercial rege grande parte das relações sociais humanas e assim molda a realidade factual, consuma o presente e vai plasmando também o próprio futuro.

Ipso facto, podemos afirmar que a cibercultura e o ciberespaço – irremovivelmente – seguem as mesmas leis, operam no mesmo meio societal, sob o mesmo regime econômico, e, por isso mesmo, estão sujeitos às mesmas dinâmicas comerciais, mercantilistas, contingências e demais adequações.

Juntamente – é claro – com sua lógica rasa de produção e geração de lucros. E essa fixação – que hoje se observa em relação, por exemplo, aos smartphones, seu culto e massiva utilização – reflete exatamente essa exploração das massas por meio das tecnologias, e através da própria cultura que se cria em torno delas.

Em pouquíssimas palavras, a pessoa paga uma verdadeira fortuna para comprar o aparelho, e ainda adquire – de quebra – um custo fixo considerável para o fornecimento de um serviço – frise-se – que é executado, em sua maioria, por máquinas e sequências algorítmicas.

Sim, pois mais uma linha telefônica conectada à rede de qualquer operadora significa, na prática, apenas um comando de computador. Há – é claro – outros custos, como manutenção, torres, pessoal de atendimento, mas o custo adicional por usuário é irrisório. Além disso – como já foi dito –, mais telefones e acesso à rede e aos conteúdos variados não vai determinar necessariamente nenhum tipo de desenvolvimento cultural e humano. Apenas novos potenciais que podem ser explorados ou não.

 

*Alexandre Quaresma é escritor ensaísta e filósofo brasileiro, pesquisador de tecnologias e consequências socioambientais, com especial interesse na crítica da tecnologia. É membro da Renanosoma (Rede de Pesquisa em Nanotecnologia, Sociedade e Meio Ambiente) e vinculado à FDB (Fundação Amazônica de Defesa da Biosfera). Autor dos livros Humano-pós-humano – Bioética, conflitos e dilemas da Pós-Modernidade (2014); Engenharia genética e suas implicações (Org.) (2014); Nanotecnologias: Zênite ou Nadir? (2011); e Artificial Intelligences – Essays on Inorganic and Non-biological Systems (Org.) (no prelo). Atualmente é mestrando em Tecnologias da Inteligência e Design Digital pela PUC-SP e pesquisa as controversas relações entre as inteligências artificiais (IA) complexas e as sociedades contemporâneas, tendo publicado diversos artigos sobre a temática: “Determinados por nosso próprio determinismo” (2012); “Revolução robótica” (2013); “Auto-organização de quarto grau” (2014); “O tecnomito da caverna” (2014); “Hibridação ciborgue” (2014); “Deuses ou presas” (2014); “Corpo-máquina?” (2014); “Sistemas complexos e emergência: como se origina a inteligência e a vida” (2015); “Redes autoconscientes: as novas mentes cibernéticas globais” (2015); “Homo tecnológico” (2015); “Cumulonimbus-informaticos” (2016); “Rivais de silício’ (2017), “Rivais de silício II” (2017) e “Jogos egoístas” (2017).

 

Para ler esse texto na íntegra, compre a revista Sociologia – Ed. 74