Pierre Bourdieu: vida e obra

Conheça mais sobre a trajetória de Pierre Bourdieu, que saiu de uma região camponesa da França para se tornar um dos expoentes da Sociologia

Por Daniel Rodrigues Aurélio* | Adaptação web Tayla Carolina

É um desafio e tanto encontrar na prateleira de livrarias e bibliotecas biografias sobre Pierre Bourdieu, indiscutivelmente um dos maiores cientistas sociais da segunda metade do século XX.

Na esteira da publicação da obra de referência Vocabulário Bourdieu (Autêntica Editora, 2017, 400 p.), coleção de verbetes organizada por quatro dos maiores especialistas no pensamento bourdiano ou bourdieusiano (Maria Alice Nogueira, Ana Paula Hey, Cristina de Medeiros e Afrânio Mendes Catani), preparo aqui uma breve introdução sobre a vida e (algumas das) ideias do célebre sociólogo francês.

Sem querer me eximir de eventuais equívocos e derrapadas, devo dizer que recontar sua história, ainda que resumidamente, é uma tarefa quase tão delicada quanto refletir sobre seus conceitos. Vou ao menos tentar ser objetivo e didático.

Uma hipótese inicial: talvez os maiores especialistas em sua vida e obra se sintam um tanto intimidados para descrever a trajetória de um pensador e pesquisador que possui, entre seus trabalhos mais lidos e citados, um artigo com o inclemente título de “A ilusão biográfica”.

Até mesmo o contundente Pierre Carles, diretor de A sociologia é um esporte de combate (2001), filme que acompanhou o cotidiano de entrevistas, reuniões, leituras, palestras e debates-embates de Bourdieu, não se arriscou a elencar fatos da vida do seu documentado de forma linear, ordenada e bem costurada, como ocorre com outros pensadores e figuras públicas – Marx, Nietzsche, Arendt, Darwin, Beauvoir, Einstein e Freud etc. foram objeto de extensas biografias e filmes documentais ou de ficção.

O documentário de Carles, porém, tem um clima tenso peculiar, entrecortado por situações desconfortáveis, embora com frestas para respiros de ironias e piadas. Serei justo com aqueles que se esforçaram. Encontram-se, aqui e ali, breves e qualificados perfis, cronologias, pistas e análises sobre o autor de A distinção, As regras da arte e A dominação masculina.

Sergio Miceli, Löic Wacquant e Renato Ortiz escreveram textos que merecem ser lidos e relidos com prazer. Doutor em Filosofia pela USP, Eduardo Socha, em dossiê temático para a revista Cult, encarou a fera de frente e elaborou um pequeno glossário de conceitos: habitus, campo, capital, estratégia.

Ficou demasiadamente sucinto, provavelmente em função das limitações de espaço. Assumiu corajosamente o risco, porém. Afinal, quem lê as entrevistas concedidas por Bourdieu, vê a gravação de suas conferências no YouTube ou estuda profundamente os seus livros sabe que ele mesmo não fazia questão de enquadrar seu sistema conceitual e sociológico em duas ou três linhas – ele se valia de estratégias conforme seu público.

E não é exagero afirmar que é preciso dissecar seus textos frase por frase, parágrafo por parágrafo, com releituras, anotações, comparações, contextualizações.

Até mesmo a última obra saída da implacável pena bourdieusiana, Esboço de auto-análise (2010), constitui-se em uma espécie de tentativa – nem sempre convincente – de analisar sociologicamente a si, procurando escapar da noção de um “sujeito construído” pelo poder da narrativa seletiva: “Isto não é uma biografia” quase berra a epígrafe do ensaio (um ensaio ao seu estilo, claro), na qual ele admite, no entanto, que “compreender é primeiro compreender o campo com o qual e contra o qual cada um se fez” (2010, p. 40).

Convenhamos, mais Bourdieu, impossível: “Não pretendo me sacrificar ao gênero autobiográfico, sobre o qual já falei um bocado como sendo, ao mesmo tempo, convencional e ilusório” (2010, p. 37). Todavia, o tiro fatal havia sido disparado em “A ilusão biográfica”, capítulo de Usos & abusos da História oral, coletânea organizada pelas pesquisadoras brasileiras Janaina Amado e Marieta de Moraes Ferreira, com textos de craques do bem pensar como o escritor ítalo-cubano Ítalo Calvino e o historiador francês Roger Chartier.

Escreve Bourdieu que “a história de vida é uma dessas noções que entraram como contrabando no universo científico” (1996, p. 183). Pierre Félix Bourdieu nasceu (ou foi oficialmente registrado) em uma sexta-feira, dia 1o de agosto de 1930, na pequenina comuna de Denguin, arredores  da região de Béarn, sudoeste da França, nos Pirenéus Atlânticos, praticamente divisa com a Espanha, ou melhor, Catalunha.

Além do francês, uma das línguas nativas na terra de Bourdieu era o occitânico, de matriz linguística românica, também falada pelos lados do Principado de Mônaco e em nacos da Itália, nos Vales Occitanos. Pierre Bourdieu, portanto, veio à luz longe demais da capital Paris.

Mas voou adiante, muito além de Denguin e dos Pirenéus, em sua – nas palavras de Wacquant – “trajetória improvável” como intelectual, pesquisador, acadêmico e professor.

Em 1930, a França vivia a sua Terceira República, então presidida por Gaston Doumergue (1862-1937), do Partido Radical, uma legenda que, a despeito do nome, curiosamente localiza-se ao centro na régua da política nacional, com sua miscelânea de liberalismo social e republicanismo.

Doumergue, além de acumular o posto de copríncipe de Andorra, conforme determina a legislação francesa, mantinha ao menos vinte territórios sob o domínio da bandeira tricolor na África – um dos quais, a Argélia, seria preponderante para a travessia de Bourdieu da Filosofia para as Ciências Sociais.

 

*Daniel Rodrigues Aurélio é sociólogo, escritor e editor, graduado em Sociologia e Política pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, mestre em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC-SP, especialista em Globalização e Cultura e em Sociopsicologia pela EPG/FESPSP, além de MBA em Book Publishing pela Faculdade de Letras do Instituto Singularidades/Casa Educação.

 

Para ler esse texto na íntegra, compre a revista Sociologia – Ed. 74