Entrevista com Rosemary Segurado

Professora da PUC-SP e da Escola de Sociologia e Política de São Paulo, Rosemary Segurado discute os rumos da política no Brasil

Por Daniel Rodrigues Aurélio | Foto Arquivo Pessoal | Adaptação web Isis Fonseca

Rosemary Segurado

Professora da tradicional Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo desde 2002, e do Departamento de Ciência Política e do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo a partir de 2008, a socióloga e cientista política Rosemary Segurado é especializada na área de mídia e comunicação, sobretudo no campo da comunicação política.

Graduada, mestre e doutora em Ciências Sociais pela PUC-SP, realizou seu pós-doutorado na Universidade Rei Juan Carlos,  em Madri, Espanha. Segurado orientou dezenas de pesquisas de graduação, especialização, mestrado e doutorado.

Pesquisadora do Núcleo de Estudos em Arte, Mídia e Política (Neamp/PUC-SP), orientanda e colega de departamento de uma das maiores autoridades em Ciência Política e Mídia no Brasil, Vera Chaia, Rose Segurado também demonstra seu lado engajado ao posicionar-se contra o que qualificou como golpe para derrubar o governo Dilma Rousseff e também por sua enfática defesa das ocupações de escolas públicas pelos estudantes.

Para a socióloga, é preciso reagir e lutar pela manutenção da democracia e das conquistas sociais, pois estaria em curso “uma escalada conservadora com contornos fascistas muito fortes na sociedade e na atuação de algumas instituições públicas”.

Quando ocorreu seu despertar para a sociologia?

Fiz dois anos de Medicina antes de entrar para o curso. Na verdade, descobri que meu interesse pela Medicina estava mais relacionado ao caráter social que acreditava que a carreira deveria ter, mas foi decepcionante. Um curso muito técnico, sem aquela perspectiva de pensar o homem na sociedade e os processos de saúde e doença relacionados à vida em sociedade.

Desde o dezesseis anos participo de atividades políticas e tinha alguma leitura sobre textos de teóricos marxistas, anarquistas ou dos clássicos gregos. Daí veio o interesse em mudar de área para aquela que contemplava meus interesses de compreender a vida em sociedade e nela atuar como sujeito.

Sua tese de doutorado trata da sociedade de controle e do biopoder. Conte-nos sobre o tema.

Desde o início da graduação me interessei por questões relacionadas ao papel dos meios de comunicação na sociedade. No mestrado fiz uma pesquisa sobre as rádios livres e comunitárias analisando a legislação de concessão de rádio e TV. No doutorado esse interesse se manteve, mas estava interessada em analisar a cobertura do discurso científico, e meu doutorado foi no momento do sequenciamento do código genético humano.

Foi muito interessante, pois analisei a cobertura da mídia durante o ano de 2000, pelas reportagens de todos os telejornais, e pude concluir que estávamos diante do que chamei de “biopoder-midiático”, o que significava dizer que a mídia divulgava o sequenciamento do genoma como se fosse a cura para todos os males da humanidade.

Isso proporcionou o crescimento violento das ações de biotecnologia e um enriquecimento incrível dos setores ligados a esse setor econômico. Verifiquei, então, que toda a discursividade criada em torno do genoma estava voltada essencialmente para o exercício da conduta dos corpos, da conduta dos indivíduos.

A dinâmica do controle na sociedade atual é cada vez mais molecular, cada vez mais baseada na informação, e o código genético é a informação em seu estado mais básico. Como dizia Deleuze, os equipamentos cibernéticos e os computadores são a máquinas da sociedade de controle. O sequenciamento do genoma era isso: transformar os indivíduos em informações manipuláveis, adaptáveis.

Quais são seus autores favoritos? E por quais motivos eles não saem da sua cabeceira?

Embora seja formada nas Ciências Sociais, cada vez mais me aproximo das leituras do campo da Filosofia. Gosto de diversos autores, mas destacaria Gilles Deleuze, Michel Foucault, Karl Marx, Antonio Negri e Michael Hardt. Gosto muito também dos pré-socráticos, mas por questões de trabalho saíram um pouco da minha cabeceira que estava cheia. Os autores que citei não saem da minha cabeceira pois são autores de múltiplas leituras e variadas perspectivas de análise possibilitadas por eles. São autores também que articulam leituras da História e da Filosofia, então contribuem para a compreensão dos processos sociais e políticos.

Você sempre se destacou por seus trabalhos no campo da comunicação e da política. Qual a importância dessa relação? Você acredita que o Brasil tem uma boa produção acadêmica nessa linha?

O campo da comunicação política já foi – e em alguns espaços ainda é – muito marginal na Ciência Política. Felizmente isso vem mudando nas últimas décadas. Lembro-me de quando encontrava colegas durante meu mestrado e dizia que estava estudando o sistema de radiodifusão, e as concessões de rádio e TV, e alguns deles me diziam: “Isso é objeto da comunicação”. Sempre achei um absurdo e limitado. O sistema de comunicações no país é um grande ponto para compreendermos algumas dinâmicas políticas da sociedade, portanto nada mais fundamental que ser estudado pela Ciência Política.

Ao acompanharmos a crise política do Brasil no período recente, nota-se claramente o papel dos meios de comunicação nesse processo, seus posicionamentos políticos, sua postura de ator político. Isso fica claro com os chamados vazamentos das investigações da Polícia Federal. Vazamento como eufemismo barato para chamar o que é divulgação, se não ilegal, imoral, de partes da investigação.

Quando vemos que o jornal tal, ou emissora tal, teve acesso exclusivo à gravações originadas de escutas legais ou ilegais, estamos diante de um poder tremendo da mídia nesse processo.

O governo interino, e na minha opinião golpista, assumido por Michel Temer (PMDB-SP), já apresenta suas vítimas dessa política de “vazamentos”. O senador que assume em áudio gravado antes da votação do afastamento da presidenta Dilma que o impeachment era importante para parar as investigações da Polícia Federal. Se isso não for estudado no campo da comunicação política, corremos o risco de achar que a mídia divulga a política e ponto. Um imenso equívoco, pois a mídia faz política o tempo todo.

A área de comunicação política cresceu muito no país e possui excelentes pesquisadores e pesquisas diversificadas, inclusive com a criação da Associação Brasileira de Pesquisadores da Comunicação Política, que se reúne em congressos a cada dois anos para discutir as pesquisas do campo.

Adaptado de Revista Sociologia Ciência & Vida Ed. 65